Da janela do trem


Trens... Trens passando... Rápidos. Apressados.
Com gente inquieta. Insatisfeita. Cristã. Assustada. Frustrada. Suada.
Estou em um deles. Sempre estou do lado da janela. Gosto de ver o que está lá fora.
Não gosto de ver as pessoas, mas sim as casas, as árvores, os trilhos que correm rápidos.
É o mesmo trajeto todos os dias. Os mesmos rostos. As mesmas casas. O mesmo trilho.
Hoje parece ser mais um daqueles dias normais, todos entram quando as portas se abrem
e buscam lugares para se sentar. Eu sento perto da janela.
Quando o trem sai da estação eu a vejo: olhos castanhos, cabelo liso claro e ela aponta pra frente. Ela some de vista. Mais adiante a mesma mulher apontando pra frente, logo à frente.
Eu pisco, tento me concentrar... a noite foi mal dormida. Não parece ser real o que vejo.
Esfrego os olhos e olho de novo pra fora. Ela não está lá. Rio. Tive a sensação de conhecê-la.
Cerca de 50 metros à frente a vejo de novo e dessa vez a reconheço: sou eu. Mas não pode ser.
Ela aponta para o trilho.Mas já é tarde demais. A madeira solta foi o suficiente.
As rodas gritam um som agudo terrível. O vagão tomba e todos sussurram aflitos. Os sussurros são medonhos.
Acordo num pulo e me vejo encostada na janela do trem. Foi apenas um sonho.
Saímos da estação.... e lá está ela. A mulher apontando pra frente, assustada... Sou eu quem está lá fora.
Avisando a mim mesma que o fim da linha está próximo.

Inspirado por P. Hawkins.

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